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CONTRIBUIÇÃO ÀS FORMAS DE EXPRESSÃO SONORO-MUSICAIS
Uma proposta de educação musical dialógica, dedicada a Paulo Freire
Uma música para todosUm videoclipe pelas revoluçõesUm convite à superação
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Nos anos 70, Paulo Freire fez um convite-
desao ao musicólogo Carlos Kater: compor uma
“Música do Oprimido”. O resultado, construído
de forma criativa e dialógica no âmbito de um
dos cursos de música no
Atelier d’Expression
Musicale et Corporelle”
, em Paris, se chama “La
Manifestation”. Ela está agora disponível sob
forma de áudio e de videoclipe inédito, que instiga,
comove e convoca à reexão.
O áudio desta versão foi realizado com
exclusividade pelo NuSom - Núcleo de Pesquisas
em Sonologia, da USP, conduzido por Fernando
Iazzeta, a partir da partitura original de 1980 que
mede mais de três metros de comprimento.
O QUE É A OBRA
A MANIFESTAÇÃO?”
“Fica aqui também nossa homenagem aos oprimidos e oprimidas de todas
as épocas, assim como às pessoas que, conscientes da perversidade desse
mecanismo, se empenham, com amor e respeito, em sua superação no presente.”
C.Kater
“La Manifestation” foi concebida no âmbito de um
dos cursos de música que ministrei no
Atelier
d’Expression Musicale et Corporelle”
, em Paris,
desde 1978.1
Na origem, ela se caracterizou como uma proposta
criativa e educativa dialógica, junto a um grupo
constituído por um educador musical e alunos,
interagindo num processo que envolveu dimensões
sensíveis e intelectuais, alimentadas pelo
imaginário dos participantes.
O produto gerado resultou numa cena musical
performática, interpretada pelo próprio grupo
(executando instrumentos de percussão de
diversas naturezas, apitos, vozes, megafone,
gravador) e com participação interativa e
colaborativa do público presente.2
Sua estreia mundial se deu no
“I Rencontre Musical
des Enfants de la Ville de Paris”
(“I Encontro
Musical das Crianças da cidade de Paris”), com o
grupo de alunos do
Atelier
, sob minha regência, na
“Péniche Théâtre”
, em 14/05/1980.
MAIS SOBRE A OBRA,
SEGUNDO CARLOS KATER
1. Os cursos lá realizados foram conce-
bidos e ministrados por mim e por Aude
Kater.
2. O público foi vivamente convidado a
participar com leitura de textos de dife-
rentes personagens que deram corpo à
manifestação, sejam os manifestantes
propriamente ditos, o orador, automobi-
lista, policial, cachorro etc. O próprio re-
gente fez a direção das intervenções do
público, integradas ao conjunto dos -
sicos alunos.
A estreia brasileira ocorreu no “XX Festival de
Música Nova”, de Santos, a convite de seu diretor, o
compositor Gilberto Mendes. O Grupo Experimental
de Artes do CACMA, sob a regência de Luzia M.
da Guarda, realizou uma versão performática no
Teatro Brás Cubas, em 26/08/1984, seguida por
apresentações realizadas em Cubatão e outros
locais.
Importante observar que, na gênese de “La
Manifestation” está presente o pedagogo brasileiro
Paulo Freire, a quem ela é dedicada. Foi num de
nossos encontros em Genebra, que ele fez o convite
instigante e motivador de criação de uma “música
do oprimido”.
A envergadura do desao pareceu imensa na
época, visto a complexidade que me impunha,
acrescida ainda pela magnitude do trabalho de
natureza semelhante já realizado por Augusto Boal,
com o “Teatro do Oprimido”, tão competente e
bem-sucedido, dentro e fora do Brasil.
Mas foi sem dúvida a motivação desse desao
de Paulo Freire que amplicou em mim a
necessidade de uma escuta crítica e criativa, bem
como de reexões sobre as manifestações que
ocorriam desde 1978 em Paris, reacendendo as
expressões revolucionárias de Maio de 1968, bem
como daquelas que emergiram com as greves
organizadas pela CGT e CFDT em 1979.3
Vale a pena lembrar, mesmo de passagem, que,
em todas elas, as mensagens dirigidas ao poder
constituído, aos patrões e empresários, à polícia, às
instituições da direita e da esquerda tradicionais,
bem como aos próprios estudantes foram sempre
intensamente reivindicativas, irreverentes,
provocadoras e... sonoras!
Em todas elas a característica básica se mostrou
preservada... um meio de expressão sociocultural,
de participação coletiva, compreendendo
componentes sonoros e musicais de maneira
intrínseca, e na grande maioria dos casos,
implicando também no deslocamento das fontes
de som – o que intensica ainda mais a dinâmica
dessa performance pulsante e a cada vez única.4
Muito embora os graus de importância e as formas
de articulação entre os materiais sonoros e os
demais elementos típicos deste meio expressivo
3. CGT e CFDT signicando respectiva-
mente: “Confédération Générale du Tra-
vail’ e “Confédération Française Démo-
cratique du Travail”.
4. Nela podemos encontrar uma multi-
plicidade de eventos sonoro-musicais:
a simultaneidade de acontecimentos, a
presença concomitante de organizações
sonoras determinadas e indeterminadas
(interpenetrando-se de maneiras particu-
lares), a diversidade e o deslocamento fon-
tes sonoras, os jogos de dinâmica, textura
e densidade, a variedade de planos dos
parâmetros: intensidade, frequência, tim-
bre e tempo, a composição de uma forma
semi-aberta (cuja estrutura profunda se
apresenta constantemente transgura-
da), o contraponto entre eventos sonoros
determinados, indeterminados e improvi-
sados, o processo geral anti-teleológico,
etc.
possam variar consideravelmente, a dimensão
sonora é sempre superlativa, abrangente e
extraordinária.
A ordem de complexidade dos sons uindo
em seus próprios discursos (slogans, refrões,
palavras de ordem, discurso de oradores, aplausos,
interferências vocais múltiplas, instrumentos
musicais, sons órfãos etc.), apartados agora de
uma forma estabelecida e ordenadora, pode gerar
uma resultante de aparente simplicidade. No
entanto, ao contrário, estamos face a um universo
entrópico e complexo, marcado pela revolta
presente nos sons que veementemente buscam a
liberdade de qualquer matriz-padrão controladora,
que produz na música o que a força das margens
impõe aos rios.
Mas é importante dizer que, dos registros
realizados durante o processo de composição
original da “La Manifestation” restou apenas um
mosaico de recordações na memória de todos
os participantes e... uma partitura, quase painel,
medindo mais de 3 metros de comprimento por 1
de altura.5
5. Essa grande folha de rolo de papel
Kraft foi o anteparo sobre o qual regis-
tramos os fatos e feitos maiores de nosso
processo criativo e que orientaram após
sua interpretação.
Partitura de “La Manifestation”, medindo 3m28 de comprimento por 1m de altura
A realização sonoro-musical que temos a
oportunidade de escutar hoje, nesta versão, resulta
de uma leitura viva e criativa do NUSOM, conduzida
por Fernando Iazzeta, e orientada por macro
referências dessa partitura.
O ouvinte atento escutará também citações
musicais de signicado subjetivo e proximidade
com o tema (a nível de textura, densidade,
morfologia, intenção), como
“Santos Futebol Music”
(1969), de Gilberto Mendes, “Sinfonia das Diretas”
(1984), de Jorge Antunes e “Percursos” (1983), de
minha autoria.
Estamos, na realidade, diante de uma “paisagem
sonora” apenas aparente. Aqui, “sons são sons”
e “manifestações... manifestações”, mas nossa
escuta, emancipada agora pelo movimento, os
transforma de elementos soltos do chão das ruas
em sonoridades plenas de signicado, integradas
no mundo imaginário dos novos sentidos propostos
pela composição musical.
E é preciso dizer que não há compromisso de
“interpretação el” do registro do caminho
inventivo disposto na partitura. Assim como ela,
partitura, também não representa a “sonograa” de
um momento captado por ouvidos ávidos, visando
xar com “delidade” a vida de um instante sonoro
qualquer. O compromisso é o de transgredir e
transcender, através da criação, os limites da
realidade aparente, ir além do rigor de uma suposta
delidade, que, de fato e em geral, compromete,
quando não verdadeiramente sequestra e
assassina, o valor maior, a essência dos fatos e
fenômenos que tanto busca preservar.
Mas convém relembrar que, o que desde a origem
de fato se perseguiu na “La Manifestation” foi a
maneira dialógica, livre, inventiva e própria de
dar voz, visibilidade, autonomia e protagonismo,
pela música, aos participantes, convidando-os a
reexões e posicionamentos inovadores, diante
de situações sociais de real signicado. Essa foi,
naquele momento, a resposta possível ao desao
de uma “música do oprimido”.
A proposta feita àquelas crianças, aos jovens
e ao público de 1980, não foi a de criarmos
uma música viva naquele momento para ser
reproduzida identicamente no futuro mas ... uma
música criada como reexo das particularidades
das necessidades, habilidades e compreensões
pessoais de todos os participantes, registrada
numa partitura, indicando o caminho percorrido e
acolhendo seus imaginários e expressões.
E é essa abertura que pode servir em qualquer
tempo de estímulo a novos processos criativo-
musicais, acolhendo a reexão crítica e livre, ponto
de partida para outras interpretações, como a que
é possível assistirmos no clipe ou escutarmos no
CD editado pelo Berro.6
Quem sabe, pelo entendimento do mundo vivido
nas manifestações anteriores e pelas experiências
de uma música de pessoas menos oprimidas
e opressoras - ou já conscientes de parte das
opressões que sofrem e igualmente promovem
-, estejamos mais aptos agora a escutar as
expectativas e necessidades expressas nas vozes
de todos os cantos de hoje?
É esse, a meu ver, o maior desao de ontem e de
todos os tempos presentes.
6. O CD pode ser ouvido em http://berro.
eca.usp.br/index.php/discography/os-
-da-trama-vol-2/ e adquirido em https://
berro-nusom.bandcamp.com/album/os-
-da-trama-vol-2 . O videoclipe pode ser
assistido em https://youtu.be/uIr8VbLo-
8lU ou https://www.carloskater.com.br/
composicoes
De 1978 a 1980, fui responsável pelo planejamento
e coordenação dos cursos de música do
Atelier
d’Expression Musicale et Corporelle”
, em Paris.
Durante este período, desenvolvi algumas técnicas
particulares de iniciação, sensibilização e criação
musical, com grupos de alunos de diferentes
idades.
A que relatarei resultou de uma experiência
pedagógico-artística com um grupo de alunos de
8 a 13 anos e teve aproximadamente 7 meses de
duração, com encontros semanais de cerca de duas
horas.
Ela é dedicada ao educador brasileiro Paulo Freire,
com quem pude me encontrar em Genebra e que de
maneira motivante me propôs o desao.8
CONHECENDO UM POUCO
MELHOR O PROJETO7
7. Segue-se aqui o texto original publica-
do em 1981: KATER, C. Contribuição às
formas de expressão sonoro-musicais. In:
Encontro Nacional de Pesquisa em Musi-
ca, n°2 (Anais). Belo Horizonte: Imprensa
Universitária, 1987, p.207-214.
8. Habitando em Paris, de 1977 a 1980,
pude conversar com Paulo Freire ao tele-
fone, depois de minha chegada à Europa.
Em 1978, eu e minha esposa Aude, fomos
encontrá-lo em Genebra, onde ele resi-
dia, trabalhando no Conselho Mundial das
Igrejas. Acolhidos sempre muito carinho-
samente, cávamos em seu apartamento
e em meio às nossas conversas surgiu a
ideia de fazer uma “música do oprimido”,
uma vez que já existia o teatro do oprimi-
do, criado por Augusto Boal. Embora na
ocasião esse desao me parecesse enor-
me, eu o acolhi com grande motivação e
após meses de reexão comecei a elabo-
rar uma alternativa de ação junto a um
dos grupos de educação musical que mi-
nistrava no “Atelier de Expressão Musical
e Corporal”, de Paris, e que resultaram na
“La Manifestation”.
As questões fundamentais propostas neste
processo de criação participativa estavam
inteiramente associadas a preocupações que
vinham me absorvendo já algum tempo.9
Do ponto de vista de técnica musical:
tornar a alfabetização e a formação musical
extensivas à música, no sentido amplo desta
arte e forma de expressão – ao conhecimento
e ao domínio do universo sonoro – e não
restritas apenas a um momento de sua
evolução histórica;
trabalhar, por consequência, tanto as
linguagens e técnicas musicais habituais
quanto as contemporâneas;
favorecer, em fases oportunas, o trabalho
de grupo e o trabalho individual, integrando
diferentes expressões artísticas e visando
a criação de um produto musical de caráter
artístico dinâmico, global e coerente,
alicerçado em contribuições consistentes das
partes no todo;
atualizar o processo de formação musical
através da inclusão de recursos sonoros não
abordáveis usualmente no aprendizado e na
9. Nos anos de 1975 e 76 fui, junto com
Victor Flusser, responsável pela parte de
música, coordenando a área de arte, lazer
e cultura, da FEBEM, em São Paulo. Nes-
ses anos atuamos também diretamente
nas Unidade de Triagem UT-3 e UT-4 e
nas Unidades Educacionais UE-2, 3 e 6,
quando tive a oportunidade de me deparar
com limites importantes estabelecidos
entre minha formação musical e os recur-
sos que possuía como educador musical
e o universo complexo e rico dos jovens
com que trabalhei em ocinas diversas.
Muito pouco do que eu havia aprendido
na universidade me servia como recurso e
ferramenta de trabalho nesses encontros,
afora o abismo imenso existente entre
nossas experiências e gostos musicais,
que se reetiam brutalmente na ques-
tão do repertório das músicas a serem
trabalhadas. Para muitas das problemá-
ticas que comecei a perceber na época,
tive de elaborar respostas criativas, como
a proposição da Escola de Samba da
entidade. Considero que a imensa di-
culdade resultante das experiências que
vivi naqueles tempos foi decisiva para a
concepção, anos mais tarde, do projeto A
Música da Gente”.
prática da música, mas presentes, direta ou
indiretamente, no cotidiano dos participantes.
E, por outro lado, de um ponto de vista que
poderíamos chamar de sócio-pedagógico:
formar musicalmente pessoas, de maneira a
possibilitar o desenvolvimento real de suas
potencialidades humanas e a participação ativa
dentro do próprio processo de aprendizagem;
fazer da trajetória educativa uma experiência
ecaz, criativa e singular, englobando ainda
a postura corrente, caracterizada pela
transferência de informações técnicas;
buscar por meio desta experiência estabelecer
um nível mais amplo e integrado de associação
entre produto coletivo de trabalho e vivência
pessoal entre os participantes do grupo.
Na metade nal de 79, enquanto trabalhávamos em
aula as diferentes naturezas sonoras e modalidades
musicais envolvendo escuta, percepção,
possibilidades de organização e codicação -,
várias cidades da França eram palco de passeatas
pacícas e movimentos reivindicatórios de diversos
portes. Em Paris, CGT, CFDT, Universidade de
Jussieu; no Havre, os portuários e em muitas outras
reges, grupos sociais já existentes ou constituídos
em função de uma razão especíca, tomavam
posição pública e aberta, organizando-se em torno
de uma causa essencial comum.10
Sendo tais fatos divulgados e comentados de
maneira habitual pela imprensa e demais meios
de comunicação e ainda diretamente relacionados
aos alunos – um ou mais familiares de alguns
deles haviam tido uma participação ativa nesses
movimentos de grupo -, nós os comentávamos
ocasionalmente de maneira genérica, quando de
nossos encontros.
Mas se a importância social desses fatos é
sucientemente óbvia para merecer aqui qualquer
comentário, a situação no que se refere à dimensão
sonora que os envolve parece-me um pouco
diferente, pois entre outros fatores, ela é de forma
geral ignorada, em especial do ponto de vista da
educação musical.
Uma manifestação qualquer é, antes de tudo, um
meio de expressão sociocultural e compreende, na
quase totalidade dos casos, componentes sonoros
e musicais de maneira intrínseca. Os graus de
importância e as formas de articulação, entre eles
10. Havia referências nesses eventos tanto
as comemorações estendidas de Maio de
1968 quanto do de Maio, dia do Traba-
lho / Dia dos Trabalhadores. Wikipedia: “O
Dia do Trabalhador, Dia do Trabalho, Dia
Internacional dos Trabalhadores ou Festa
do Trabalhador é uma data comemorativa
internacional, dedicada aos trabalhadores,
celebrada anualmente no dia 1 de maio em
quase todos os países do mundo, sendo fe-
riado em muitos deles. A homenagem re-
monta ao dia 1 de maio de 1886, quando
uma greve foi iniciada em Chicago, com o
objetivo de conquistar melhores condições
de trabalho, principalmente a redução da
jornada de trabalho diária, que chegava a
17 horas, para oito horas. Durante a mani-
festação houve confrontos com a polícia, o
que resultou em prisões e mortes de tra-
balhadores. Este acontecimento serviria de
inspiração para muitas outras manifesta-
ções que se seguiriam. Estas lutas operá-
rias não foram em vão. “Os trabalhadores
de todo o mundo conquistaram uma série
de direitos e, em alguns países, tais direitos
ganharam códigos de trabalho e também
estão sancionados por Constituições”. No
período entre-guerras, a duração máxima
da jornada de trabalho foi xada em oito
horas na maior parte dos países industria-
lizados. No calendário litúrgico, o dia ce-
lebra a memória de São José Operário, o
santo padroeiro dos trabalhadores.”
e os demais elementos característicos deste meio
expressivo podem variar consideravelmente, mas a
dimensão sonora é quase sempre uma pertinência
de riqueza particular extraordinária.
Nele podemos encontrar uma multiplicidade de
eventos sonoros e musicais simples e complexos,
próprios e complementares: a simultaneidade
de acontecimentos, a presença concomitante
de organizações sonoras determinadas e
indeterminadas de sons (interpenetrando-se de
forma particular), a diversidade e o deslocamento
de fontes geradoras de sonoridade, a variedade
múltipla de planos dos parâmetros (altura, duração
intensidade e timbre), a composição de uma forma
semiaberta (cuja estrutura profunda se apresenta
constantemente transgurada), etc..
Assim, em razão do potencial expressivo deste
fenômeno, resolvi investir mais intensamente
na busca de uma resposta comum às questões
expostas inicialmente.11
Disto resultou a criação de um projeto de trabalho,
que aplicado a um dos grupos do “Atelier” a partir
de 1979, intitulou-se
“La Manifestation”
.
11. Anos mais tarde criei uma proposta
semelhante, focada porém em fenôme-
no de natureza distinta, a Conferência.
Ela resultou num evento cênico-musical
performático, intitulado “Conferencia em
torno de Villa-Lobos, um espetáculo mo-
dernista”, estreado no MASP em 1986.
Eis o roteiro geral elaborado para o processo de
montagem:
Cada uma das fases constitutivas deste roteiro
– inclusive a décima terceira – foi desenvolvida
satisfatoriamente em nosso trabalho, favorecendo
tanto o aprofundamento e a incorporação das
propostas especícas de cada uma delas – de
essência pedagógica, portanto – como a criação dos
requisitos necessários à elaboração do produto nal.
FASE 1 - Considerações de diversas naturezas relativas à “manifestação”12, a
partir de experiências conhecidas ou vivenciadas pelos integrantes do grupo.
1.1 Comentário sobre esta forma de expressão no sentido descritivo: número aproximado
de pessoas participantes, sua indumentária, características, etc..
1.2 Estudo da organização interna de uma manifestação e das funções desenvolvidas
pelos elementos: guarda-costas, discursadores, participantes ativos, entrevistadores,
palavras de ordem, etc.; ainda, os elementos resultantes da interferência da
manifestação no local apresentado e funções respectivas: imprensa em geral,
pessoas da região favoráveis ou contrárias
às reivindicações, polícia, batedores
controlando o trânsito para a passagem dos
manifestantes, etc.
12. Enquanto evento coletivo de expres-
são e reivindicação de novas alternativas
de vida e/ou melhores condições de tra-
balho, de cunho politico, social, cultural
e/ou ideológico.
1.3 Reexão conjunta sobre a função e conteúdo social da manifestação de uma maneira
geral, dando ênfase à razão de existência dessa forma de expressão, aos objetivos de
reivindicação, à categoria social das pessoas envolvidas, etc.
FASE 2 – Intensicação da atenção da escuta e vericação detalhada das
fontes sonoras constituintes de uma manifestação qualquer. Foco especial na
percepção, no sentido de favorecer a descoberta e posterior reconhecimento, das fontes
sonoras mais pelo desenvolvimento auditivo que visual.
Sendo esta fase essencial para a nalidade do trabalho, foi fundamental o levantamento
exaustivo dos elementos integrantes do universo sonoro próprio de uma manifestação,
bem como daqueles gerados em razão dela.
FASE 3 – Com base nas considerações pessoais e do grupo sobre o sentido e
a necessidade de se manifestar, se posicionar e reivindicar no social o que
ao social pertence. Proposta de elaboração de uma manifestação própria, com os
elementos e a organização característicos e necessários, a partir da reexão conjunta,
partilha de opiniões e escolha de um tema adequado. Tema adequado signicando um
tema capaz de representar uma situação ou fato legitimo relativamente à totalidade dos
integrantes do grupo, mediante reexões, exposições, conversações, argumentações
individuais e em pequenos grupos em dinâmica viva e interativa, seus pontos de chegada
em determinado momento, que foram objeto de votação. A escolha nal não se deu por
maioria simples mas por consenso. A votação reetiu um “estado” de escolha qualitativo
mas não o espaço de convergência necessário para uma ação criativa coletiva. Foi então
destacado um tema aglutinador com sentido de integração para todos os participantes.
E este tema foi a “Musica para todos” e a “Música das Músicas” (ou melhor... as Músicas
fora da Música).
FASE 4 – Apresentação do resultado desta execução, encarado enquanto um
teatro ou cena musical.
FASE 5 – Exceção feita ao aspecto sonoro próprio deste evento, fazer
abstração de todos os demais e gravar o trabalho, num local conveniente.
FASE 6 – Audição e discussão crítica da gravação, visando
preponderantemente sua percepção, avaliação critica e o aprofundamento de
noções fundamentais, como por exemplo:
Densidade - Intensidade - Registro e tessitura - Timbre - Textura
Oposições e Contrastes: modalidades de passagem e de ruptura
Espaço e planos sonoros (níveis, combinação, mobilidade)
Conceito e função estrutural de “Tema”: principal e complementar
Sentido e modalidades de acompanhamento, estrutura e forma: níveis e planos de
organização, introdução, caracterização de seções, transição, desenvolvimento, coda etc.
FASE 7 – Baseando-se nos resultados do trabalho da fase anterior, realizamos
as modicações necessárias que foram propostas e gravamos novas versões
em atendimento aos aspectos observados e pontos objeto de critica.
FASE 8 – Audição – vericar atentamente os resultados obtidos a partir das
transformações operadas.
A comparação das duas versões do trabalho é extremamente oportuna para o
desenvolvimento da percepção e para o estudo da variação.
FASE 9 – “Ditado coletivo”. As pessoas se situam em torno de uma grande
folha de papel, preparada previamente da seguinte forma: os componentes
signicativos do evento sonoro são indicados na margem esquerda e as
subdivisões temporais indicadas em barras verticais.
9.1 Num primeiro momento solicita-se simplesmente a constatação da presença e respectiva
duração em unidades de tempo – dos diversos elementos - fontes ou materiais -
repertoriados, assinalando-se um x ou traço, a lápis, no quadro correspondente;
9.2 Solicita-se após uma escuta mais aprofundada e detalhada das particularidades de cada
um dos materiais constituintes. Caso tenham sido trabalhados anteriormente processos
de codicação de materiais de naturezas diversas, aplicá-los aqui com a precisão
corresponde; caso contrário, aproveitar este momento para explorar e desenvolver
um repertório de recursos de escrita, o mais amplo possível, a m de gerar um código
pertinente capaz de representar adequadamente os materiais e suas relações.
Fase 10 – Uma vez nalizada esta escuta atenta e inteligente (espécie de
“ditado”), novas alterações poderão
ocorrer, desta feita em função da
própria escritura. Fazer intervir aqui as
determinações de intensidade, andamento,
articulação e fraseado, expressões de
nuances, etc.
Fase 11 – Com base nesta partitura,
agora mais coerente e completa,
realizar uma outra execução,
gravando-a novamente.13
13. A partitura concebida ao longo do pro-
cesso foi realizada em papel Kraft de rolo,
medindo 3m28 de comprimento por 1m de
altura. Ela era a cada encontro xada na
parede da sala a m de que durante tanto
a sua concepção quanto sua interpreta-
ção todos os participantes pudessem lê-la
como mapa, acessando-a e assim intera-
gindo coletivamente com mais conheci-
mento e convicção no território musical.
Foi preservada a última versão da partitura
mais el à proposição nal da musica in-
terpretada na sua estreia em Paris.
Fase 12 – Segundo as circunstâncias de trabalho, os objetivos pedagógicos
e artísticos e a necessidade do grupo, este processo pode se encerrar com a
escuta desta recente gravação ou se estender ainda numa última fase.
Fase 13 – O trabalho a ser desenvolvido, a partir daqui, é exatamente aquele
de interpretação musical e de
“mise en scene”
. A concepção interpretativa deve
beneciar tanto o domínio da integração de meios expressivos como o da música pura,
propriamente.
A montagem de nossa proposta foi concebida
principalmente com base em considerações
determinantes de algumas das fases:
Nos momentos 1, 2 e 3, nos valemos de um
gravador em cena que documentou, após os
ensaios necessários, cada etapa da obra, de
maneira sucessiva, justaposta. Estes ensaios
ocorreram no interior da dimensão teatral
e proporcionaram assim alcançar mais um
importante objetivo: a participação coletiva com
interação em tempo real.
FASE 2 – Efetuamos a distinção entre partes instrumentais, intervenções
faladas e interferências.
Instrumentos: timbales, apitos (de várias sonoridades), caxixi, tamborim, sinos, wood-
blocks, agogô, caixa-clara e tom-tons;
Intervenções faladas, representando os seguintes personagens: o policial, a
equipe responsável pelo serviço de ordens da manifestação, uma automobilista
furiosa, o repórter de televisão, um entrevistador, os manifestantes, um
“badaud”
(pessoa ingênua, simplória, “por fora”) e o orador. Elaboramos textos,
para cada um deles, que serviram de base para a atuação do público, quando de
nossa apresentação ao vivo;14
Interferências diversas (“bruitage”): onomatopeias e sonoplastia de granadas de gás
lacrimogêneo, sirenes, latidos de cachorro, tosses, estampidos de tiro de armas, pedras
se chocando em paredes ou no chão, etc.
FASE 3 – A “Música” foi escolhida como tema maior e central da
manifestação (a “Música das Músicas”) e representou o “norte” que
possibilitou por um lado avançarmos nossas reexões sobre a musica e
seu papel na sociedade e vida das
pessoas. Por outro serviu de baliza para
evitarmos enfatizar em excesso assuntos
paralelos ou apenas tangentes à musica e
à educação musical. Foram reivindicadas
melhores condições para a prática
14. Vale reiterar que a participação do
público foi um elemento característico e
marcante da apresentação original reali-
zada em Paris. Cada pessoa do público foi
convidada a subir no palco e participar da
realização da peça-evento, interpretando
uma das funções mencionadas, sendo o
coro dos manifestantes o grupo de repre-
sentação mais numeroso.
musical, bem como a ampliação do campo de significados normalmente envolvidos
nessa forma de expressão e comunicação. Por outro lado, foram objeto de critica
o consumo excessivo, a publicidade persuasiva, a opressão a nível pessoal e de
classes, a imposição de valores estéticos e estilo de vida, as atitudes mecânicas
e reações automáticas, os privilégios excessivos de determinadas classes, as
injustiças sociais etc.
FASE 4 – Apresentamos o primeiro “esboço” da peça (estágio característico
desta fase), de forma simples (isto é, despojada de recursos cênicos,
gurinos, iluminação), na própria escola, para alunos de outras turmas.
FASE 10 – A partir do “ditado” realizado pelos alunos, efetuei as correções
que me pareceram mais necessárias naquele momento, a m de registrar uma
das fases nais do processo vivenciado pelo grupo até aquele momento.
FASE 13 No que se refere à forma estética geral, englobando e
articulando as opções efetuadas nas diferentes fases anteriores,
concebemos uma cena-musical que na versão final apresentou, entre
outras, as particularidades seguintes:
Ao nal então da desagregação da manifestação,
culminando com a saída abrupta de cena e da sala
de todos os elementos do grupo – dispensando-
se pela plateia e escapando pelas portas -, a ta
de gravação foi rebobinada até seu início. Todas
as luzes apagadas, rapidamente após nosso
aparecimento, iniciou-se o quarto momento.
Ofereceu-se então ao público participante a
audição da peça inteira, como um todo ininterrupto,
resultado de um trabalho conjunto.
Essa peça foi convidada para integrar a “Primeiro
Encontro Musical de Crianças de Paris”, tendo sido
realizada na
“Péniche Théatre”
, atracada no canal
de Saint-Martin, na tarde de 14 de Maio de 1980.
MOMENTOS FORMA DE PARTICIPAÇÃO
1Introdução do trabalho por uma cena de
“Jornal de TV”
Presença em cena de apenas alguns dos
participantes do grupo
2Repórter em cobertura da Manifestação:
Ao vivo, diretamente da avenida...” e início
do evento pp/ dito
Público convidado para subir em cena e se
integrar ao grupo musical
3Desagregação da manifestação Público participante e grupo musical em
evasão do palco
4Audição nal do trabalho Público, aqui na condição de ouvinte
(fruidor), e com o Grupo ausente (fora do
espaço cênico)
Eis os principais textos utilizados na montagem
da
“La Manifestation”
, em Paris. A tradução
apresentada abaixo é literal, tendo assim a
nalidade exclusiva de favorecer a compreensão
do sentido original de conteúdos, sem, no entanto,
se preocupar de recriar rimas e ritmos da versão
original francesa para o português.
1. Repórter A:
- Boa tarde, senhoras e senhores! Interrompemos
nossas programações para informar urgente
que.... está havendo nesse momento uma grande
manifestação no Boulevard Saint Michel. Ela reúne
muitas pessoas que reivindicam seu direito à música,
ampliado para toda a sociedade sem exceção!
2. Repórter B:
Aqui Mabui15, ao vivo, para o Teatro da Péniche! Sim,
isso mesmo para toda e qualquer pessoa. Na pauta
central das reivindicações está também a ‘Música das
Músicas’. Os manifestantes cobram das instâncias
responsáveis mais música e menos consumo, menos
passatempo fortuito e televisão. Vamos agora
acompanhar o movimento mais de perto”.16
TEXTOS
UTILIZADOS
15. Nome inventado por um dos partici-
pantes para designar o repórter principal.
16. Atrás de uma moldura de TV vazada, o
repórter Mabui dava a impressão de estar
na rua apresentando “ao vivo” e “em dire-
to” a Manifestação.
3. Manifestantes
(seleção dos principais refrãos):
- Faça como nós,
a música antes de tudo!
- Do pensamento, da paixão
a música é a expressão!
- Chega de golpes rôtos,
a música está conosco!
- 1 2 3,
a música tem sua vez!
- Quem nenhuma música tem
ou é surdo, ou um Zé ninguém
Material secundário, intercalado aos refrãos.
O repertório dos textos apresentado parcialmente
aqui, é escolhido e montado em cena junto com o
público participante.
Teto para todos
Trabalho para todos
Comida para todos
Cultura para todos!
Acabaram as imposições
a música nos tira
do país das ilusões
Pare de ser passivo
de tudo fazer
sem se entregar
A música em coletivo
já vê seu dia chegar
Música para todos
não só para uma elite
Enquanto documento
enquanto arte
a música das músicas
está em toda parte
Parem de se iludir
música para se escutar
Ninguém pode ignorar
uma obra criada
Somos os criadores
somos os intérpretes
desta obra-documento
de expressão completa
Não há terra sem sol
Nem lugar sem som
Não vale se omitir,
nem car no lugar comum
uma mudança começou
não se pode esconder
a música das músicas
vocês vão compreender
Para o lixo a televisão
música viva é sempre solução
Saia daí, venha pra cá…
A vida acontece aqui,
Nada acontece lá!
Faça como nós
Pare, crie, escute...!
4. Repórter B: “- Como vocês podem ver – e ouvir
-, a manifestação segue ainda crescendo a cada
instante. Entre 50 e 1.000 pessoas continuam aqui
reunidas para reivindicar certas transformações na
criação, interpretação, comunicação e fruição da
música.”
5. Orador: “Sabemos que a Arte é uma
constante que existe desde as origens das
primeiras sociedades. Seu papel é de extrema
importância. Mesmo se a economia representa
um fator determinante de qualquer sociedade,
a Arte e a música em especial é que favorece o
desenvolvimento das pessoas e das comunidades
que a integram, e isto num processo intenso e
dialético. Existem múltiplos aspectos da Arte
sucientes para justicar sua existência e sua
importância. Lembramos aqui apenas de dois, que
bastam para compreendermos a essência dessa
importantíssima atividade humana:
enquanto obra criada, a musica fornece, através de
seus criadores e de seus intérpretes, o documento
de toda e qualquer realidade, como podemos
perceber aqui! E esse documento é dotado de uma
grande particularidade ... sua linguagem, e as
expressões que criativamente articula!
em segundo lugar: enquanto produto de uma
necessidade de expressão, a musica se estabelece
como meio de comunicação, quase sempre
superando limites e integrando diferenças.
E, é falando em meio de comunicação, necessidade
de expressão, documento expressivo, arte
e linguagem, que reivindicamos “MÚSICA”.
Música, organização do universo sonoro, de suas
manifestações innitas desde os primeiros passos
dos seres humanos. Não estamos falando aqui
de uma música qualquer, estamos reivindicando
a prática ativa da “Música das Músicas”, da
música expressão e documento, da música viva
e criativa, da musica arte, original, expressão
sonora de pensamentos, e portadora de intenções,
necessidades, percepções e paixões legitimas!”
“Há mais de 40 anos, éramos um grupo de
crianças que se encontrava regularmente na rua
Rodier, em Paris. Pelo que me lembro, éramos um
grupo de crianças felizes, de concentração difícil
e todas com idade entre 10 e 15 anos. Estávamos
todos lá, presentes pela Música, com M maiúsculo.
Nossa experiência musical e compreensão foram
extremamente díspares. Alguns já tocavam um
instrumento, sabiam ler partituras, compreendiam
uma sinfonia e podiam imaginar um ritmo.
Outros, como eu, eram realmente desprovidos de
qualquer conhecimento e experiência musical. Sob
a orientação do nosso querido professor Carlos
Kater, trabalhamos juntos para construir uma
partitura “orquestral” que tocaríamos para um
público desconhecido.
Lembro-me de um trabalho muito alegre durante
o qual colocamos pequenas peças musicais de
ponta a ponta… Repetíamos incansavelmente as
nossas partes para ter a certeza de que cada um
dos instrumentos encontrava o seu lugar e o seu
posicionamento… Nos tocávamos os sons mas eles
igualmente... nos tocavam!
Lembro-me claramente da capacidade criativa de
Carlos, que era capaz de construir instrumentos a
partir dos objetos mais incríveis (tubos, caixas…)
porque queríamos criar musica e melodia do nada.
DEPOIMENTOS DE
ALGUNS PARTICIPANTES
DO GRUPO DE 1980
Em última análise, o instrumento escolhido por
Carlos para nos explicar a música e nos guiar
nesse processo foi a voz e os sons que saíam da
boca. Isso nos ajudou a dar vida àqueles sons que
pareciam tão difíceis de compreender...
De minha parte, me lembro que tocava uma quase
bateria de verdade… E me recordo de sentir muito
orgulho pela conança que Carlos depositava em
mim, mas também me intimidei muito com essa
responsabilidade! Essa abertura para a música,
esse aprendizado com os sons e pelos sons,
essa capacidade criativa de todos nós do grupo
permanece para mim como uma linda lembrança
de minha infância.”
“No ano de 1979 minha família se mudou para
França e em Paris conhecemos o casal Aude e
Carlos Kater. Eu e meus irmãos começamos a
participar de uma ocina de música que Carlos
ministrava no
Atelier d’Expression Musicale
et Corporelle
, quando conhecemos os alunos
franceses, os vários instrumentos que havia na
escola e suas possibilidades expressivas. Entre eles
gostei muito dos apitos e me recordo de um apito
indígena que me interessava especialmente e o
usei nos encontros de música e na apresentação.
Philippe Bizot
Empresário e presidente
de empresa.
Tóquio, 16 de outubro de 2021
Foi uma das experiências mais ricas que vivi num
trabalho coletivo musical. Me recordo de nossas
conversas e reexões, no meio do processo da aula,
quando fazíamos sugestões e escolhas de frases
denindo as falas para a nossa manifestação, cujo
tema era a música.
Tenho ainda presente a sensação fantástica da
apresentação; um frenesi mesmo, por conta da
nossa interação com as pessoas do público e que
gerava uma energia especial. Isso me lembro bem,
foi incrível, estávamos criando e ao mesmo tempo
mergulhados num evento real... A sensação do
movimento, das intervenções, das palavras, tudo
gerava uma atmosfera real de manifestação... O
ritmo das participações, a agitação das pessoas
naquele processo de montagem-apresentação,
as sonoridades dos instrumentos, as falas dos
manifestantes e palavras de ordem, tudo isso
dava esse clima, o clima de um evento real que eu
participei da criação e vivi em conjunto quando
tinha nove anos.
Hoje, mais de 40 anos depois, tenho ainda a
recordação viva e afetiva desse momento singular
de minha vida.”
Frederico Eleutério Barreto
Pintor e artista plástico.
Jundiaí, 10 de outubro de 2021
A música
“La Manifestation”
foi concebida no
âmbito de um dos cursos de formação musical
que ministrei no
Atelier d’Expression Musicale et
Corporelle”
, em Paris, desde 1978.
Na origem, ela se caracterizou como um processo
criativo e educativo dialógico, junto a um grupo de
jovens alunos. Resultou ao nal numa cena musical
performática, interpretada pelo grupo com viva
participação e interação colaborativa do público.
“La Manifestation” é originalmente dedicada ao
pedagogo brasileiro Paulo Freire.
Foi ele que em Genebra me fez o convite-desao,
motivador e instigante, de criar uma “Música do
Oprimido”.
Fica aqui também nossa homenagem aos oprimidos
e oprimidas de todas as épocas, assim como às
pessoas que, conscientes da perversidade desse
mecanismo, se empenham, com amor e respeito,
em sua superação no presente.
C.Kater
TEXTO... DO INÍCIO
DO VIDEOCLIPE
Se você quiser conceber a sua própria
manifestação e assim, por meio da reexão
critica e do exercício dialógico sincero,
revolucionar alguns paradigmas, sugerimos,
se pertinente, algumas “expressões-slogans”
que marcaram a história ... (entre inúmeras
outras à escolha de seu grupo) que poderão
ser expressos ou impressos em sua própria
montagem ...
Abaixo a sociedade de consumo”
A ação não deve ser uma reação, mas uma
criação”
“O agressor não é aquele que se revolta, mas
aquele que reprime”
“Corram camaradas, o velho mundo está atrás de
vocês”
“Proibido não colar cartazes”
A emancipação do homem será total ou não será”
“O estado é cada um de nós”
A imaginação toma o poder”
A insolência é a nova arma revolucionária”
QUER CRIAR A
SUA PRÓPRIA
MANIFESTAÇÃO?
“É proibido proibir”
A liberdade do outro estende a minha ao innito”
As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm
paredes”
A novidade é revolucionária, a verdade, também”
“Fim da liberdade aos inimigos da liberdade”
A poesia está nas ruas”
“Só a verdade é revolucionária”
“Escute, há musica aqui, ali, lá e em cada um”
A felicidade é uma ideia nova”
“Teremos um bom mestre desde que cada um seja
o seu”
“Um homem não é estupido ou inteligente: ele é
livre ou não é”
“Decretado o estado de felicidade permanente”
Vários desses “gritos” de protesto e de
insights
foram
criados e utilizados por estudantes na França, em
1968, escritos nos muros e em cartazes espalhados
por Paris, nas faculdades Sorbonne, Nanterre e Belas
Artes, nos arredores do Teatro Odéon e nos Bulevares
de Saint-Michel e de Saint-Germain.
“LA MANIFESTATION” (2021) - Pintura de Frederico Eleutério Barreto
“LA MANIFESTATION” (2021) - Pintura de Frederico Eleutério Barreto
Concepção, direção e realização
da proposta musical-educativa dialógica:
Criação da partitura:
Realização da versão áudio:
Pintura original “La Manifestation” (2021):
Edição do Clipe vídeo:
Auxiliaram nos ajustes de texto:
Projeto Gráco:
Coord. Geral:
Produção:
Carlos Kater
Alunos e alunas do curso
Atelier d’Expression Musicale et
Corporelle”
(Paris, 1980)
Membros do NuSom - Núcleo de Pesquisas em Sonologia
(USP), a partir da partitura original de 1980: Fernando Iazzetta
(coordenação), Amanda Jacometi, Cássia Carrascoza (autas),
Gustavo Branco, Luís Fernando Cirne, Marina Mapurunga,
Miguel Antar (contrabaixo, piano), Paulo Assis, Pedro Paulo
Kohler, Tide Borges, Vitor Kisil (percussão)
Frederico Eleutério Barreto
Matheus Manfredini
Carol Dias, Dani Bambace, Stênio Biason
Juliana Henno
C. Kater
M&K
FICHA
TÉCNICA
(2022)